Células Tronco

Tecnologia contra os problemas do coração

Técnicas cirúrgicas menos invasivas e tratamentos de ponta, como os que usam células-tronco, trazem boas notícias no combate às doenças cardíacas. A constatação é da cardiologista e livre-docente da Universidade de São Paulo (USP) Fernanda Colombo, que também coordena o Laboratório de Investigação Clínica da Unidade de Hipertensão do INCOR-HCFMUSP.

Na entrevista abaixo, a Dra. Fernanda destaca, ainda, a prevenção como uma grande aliada contra enfermidades cardiovasculares e responde a outras questões pertinentes sobre os avanços da área.

Atualmente, quais são os tratamentos mais inovadores para doenças cardíacas? Que novas técnicas estão mais em uso no Brasil?
Tratam-se são novas técnicas cirúrgicas (com cortes menores, uso de robôs) e uso de próteses valvares que substituem as cirurgias cardíacas tradicionais. O objetivo é ter maior precisão com menor agressão possível ao paciente. Na cirurgia cardíaca minimanente invasiva para tratar lesões valvulares, por exemplo, o cirurgião faz três ou quatro cortes com cerca de quatro a seis centímetros e, com o auxílio de câmeras e vídeos, faz o reparo da válvula com lesão. Essa técnica é utilizada por alguns cirurgiões no Brasil.

Vem sendo aplicada também a cirurgia de revascularização das coronárias sem usar a máquina de circulação extracorpórea. Essa cirurgia consiste na utilização de enxertos (“pontes”) que passam por cima dos pontos obstruídos das coronárias, criando um circuito alternativo para o sangue passar e irrigar o miocárdio (músculo do coração). Na cirurgia convencional, é preciso parar o coração e usar a máquina, que faz o bombeamento do sangue, mas a criação de aparelhos que param o coração no pedaço a ser tratado, sem mexer com o resto, tornou possível realizar o procedimento sem recorrer à máquina.

Algum desses tratamentos ou técnicas foi desenvolvido no Brasil?
O Brasil tem tradição quanto a excelentes cirurgiões cardíacos. Muitas das técnicas cirúrgicas foram desenvolvidas por eles. Há um polo de inovação tecnológica em São José do Rio Preto (interior de São Paulo), que está desenvolvendo uma prótese para o implante percutâneo (introduzido na pele) transapical da válvula aórtica, que poderá substituir a importada. Está em andamento um estudo clínico com esse método para avaliar sua eficiência.

A pesquisa com células-tronco já tem impacto nos tratamentos de doenças cardíacas?

A pesquisa com “células-tronco” deve continuar por muito tempo, pois está ainda no seu início. No momento, os resultados dos estudos clínicos que avaliaram o uso de células-tronco em pacientes com doença isquêmica [falta de sangue] no coração (e que não tinham alternativa para outro tratamento) foram bons, com melhora dos sintomas e da força de contração do coração. Não se sabe se esse tratamento realmente muda a mortalidade dos pacientes, ou seja, se melhora o tempo de vida.
 
E quanto a equipamentos: algum vem se provando imprescindível no diagnóstico e na cura de doenças do coração?
Com relação à maior causa de doenças cardíacas no nosso meio, a doença arterial coronariana (ocorrência de placas de gordura nas artérias do coração, o que impede o fluxo de sangue e causa infarto do miocárdio), o uso de “equipamentos novos” tem menor impacto que atitudes “antigas” e simples, como abandono de hábitos de vida ruim (tabagismo, sedentarismo, ingestão de altas doses de carboidratos e gorduras, de bebidas alcoólicas) e aumento na aderência ao tratamento medicamentoso. Ou seja, fazer prevenção antes de ter de tratar a doença.  Mudar a vida com atitudes saudáveis exige comprometimento, disciplina e muita força de vontade.

O diagnóstico de placas nas artérias pode ser feito mais precocemente, enquanto elas ainda não estão obstruindo muito a circulação, e o tratamento com várias técnicas pode melhorar o fluxo de sangue já alterado. Porém, a doença nas artérias continua e deve ser sempre controlada com medicamentos. Não há “cura”. Nos tratamentos das doenças valvares, após alguns anos de acompanhamento, também há necessidade de reintervenção – o que também não consideramos cura.

Quais as perspectivas futuras no tratamento de doenças cardíacas de maneira geral e, especialmente, em mulheres?

A perspectiva é trabalhar forte na prevenção das doenças cardiovasculares. Isso passa por controle do peso, atividade física regular, não fumar e ser rigorosa no tratamento de diabetes, pressão alta e alterações no colesterol, quando presentes.