Quando a vida moderna passa pelo consultório

Quando a vida moderna passa pelo consultório

Os desafios da mulher moderna vão muito além do ambiente doméstico e profissional – passam também pelo consultório, com relatos de estresse, alimentação inadequada, sedentarismo e poucas horas de sono, resultados do acúmulo de funções no dia a dia. Houve uma mudança nos tipos de doenças mais frequentes nas últimas décadas, alerta o ginecologista Nilson Roberto de Melo, presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e da Federación Latinoamericana de Sociedades de Obstetricia y Ginecología (Flasog).

Professor livre-docente de Ginecologia pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), ele aborda, na seguinte entrevista, esses e outros temas ligados à saúde da mulher moderna, como o combate e a prevenção ao estresse e às doenças mais frequentes, os riscos da automedicação, a importância de se visitar um profissional de saúde regularmente e as contribuições da pílula anticoncepcional e do tratamento de reposição hormonal para uma melhor qualidade de vida, em diferentes idades.

Tendo como base a experiência do sr. em consultório, quais as doenças típicas da chamada "modernidade" que são mais frequentes e como podem ser prevenidas ou enfrentadas?


A tensão pré-menstrual é muito comum. O corrimento vaginal também, porque a mulher mudou seus hábitos. Outras seriam a endometriose e o câncer de mama, cuja incidência tem aumentado. Se eu citar como exemplo minhas avós, que tiveram 18 filhos cada uma, não havia tempo para se ter mioma, endometriose. Tinha-se pouca possibilidade de corrimento, de câncer do endométrio. A modernidade fez com que o panorama fosse alterado, principalmente pela correria do dia a dia e pelo fato de se engravidar menos e mais tarde.

Os pilares para aliviar e prevenir esses sintomas são realização de exercício físico, boa alimentação e uso da pílula anticoncepcional.

Como o uso da pílula anticoncepcional pode contribuir para uma maior qualidade de vida entre as mulheres de diferentes idades?

A pílula anticoncepcional tem dois pontos fundamentais. O primeiro é evitar uma gravidez não planejada, que pode terminar, muitas vezes, em abortamento. O abortamento clandestino é a terceira causa mais frequente de mortalidade materna no Brasil, sem contar as sequelas físicas e emocionais que esse procedimento pode acarretar. Então, quando tomada de forma correta, sem esquecimentos, a pílula é muito eficiente.

O segundo ponto, não menos importante, é o de que o medicamento traz vários benefícios extracontraceptivos. Quem a usa há cinco anos, tem de 30% a 50% menos chance de desenvolver câncer de ovário e de endométrio. Ela também regulariza o ciclo menstrual, é o segundo melhor tratamento para cólica menstrual, diminui o volume do sangramento e duração menstrual, prevenindo anemia ferropriva (causada por deficiência de ferro), entre outras doenças. A pílula pode fazer também com que a mulher controle o melhor período para a menstruação, servindo ainda como tratamento à oleosidade da pele e acne.

Qual a importância de se encontrar tempo na agenda para visitar profissionais de saúde regularmente?

É muito importante que a mulher encontre tempo na agenda para fazer todo o aspecto de prevenção, que ela procure um médico uma vez ao ano. O ideal seria fazer isso a cada seis meses, mas, na pior das hipóteses, uma vez ao ano. A mulher moderna tem múltiplas funções. Ela trabalha fora, gerencia a casa, se tem filhos, administra a educação deles, e cuida até da roupa dos adultos. Ela só acumulou atividades, e isso pode causar inúmeros problemas.

Quais recomendações podem ajudar a mulher a aliviar o estresse no dia a dia? A prática de exercícios físicos ajuda? Em caso positivo, quais seriam os mais indicados?

Dois dos segredos para lidar melhor com a vida moderna seriam alimentação adequada, várias vezes ao dia, em pequenas quantidades de cada vez; e atividades físicas, que ajudariam a evitar uma série de doenças. As atividades físicas aumentam o metabolismo basal, elevando a perda calórica. Bons exemplos são caminhadas, alongamentos e um pouco de musculação, com acompanhamento adequado, sem falar na ioga, terapia que dá mais autocontrole. Quem se exercita tem, em geral, um sono mais tranquilo e mais chance de perder peso corporal.

Como a Medicina tem atuado para trazer mais conforto à mulher nos dias atuais? Há novidades com relação ao diagnóstico e ao combate à endometriose, por exemplo?

Muitas são as pesquisas, desde as referentes à endometriose, às alterações hormonais, aos corrimentos. Muito se estudou e muito se descobriu. A Medicina hoje atua no sentido mais preventivo, de orientação desde alimentação, que é muito importante, passando por atividades físicas, para a mulher se distrair um pouco no cotidiano, e higiene íntima, levando em conta até mesmo a roupa a ser utilizada. Para combater o corrimento vaginal, por exemplo, deve-se evitar o uso de calcinhas de fibras sintéticas e optar pelas de algodão.

A Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas (Abifarma) afirma que, anualmente, cerca de 20 mil pessoas morrem no país vítimas da automedicação. A falta de tempo de muitas mulheres no dia a dia pode agravar o problema?

Eu desconheço se isso é decorrente da falta de tempo. Pode ser da nossa cultura, porque muitos vão direto à farmácia e compram medicamentos, que nem sempre são os mais corretos para cada caso, mas que muitas vezes são os mais interessantes aos farmacêuticos, seja por lucro ou premiações. Eu acredito que o problema seja mais da nossa cultura, da facilidade de se ir a uma farmácia e achar que aquele balconista entende dos nossos problemas e que vai resolvê-los. A mulher não pode substituir a ida ao médico.

E o papel da terapia de reposição hormonal no bem-estar da mulher?


A reposição hormonal tem uma dupla finalidade: melhorar sintomas e prevenir doenças. Esse segundo motivo é tão ou mais importante, na minha ótica de médico, do que o primeiro, incidindo diretamente em uma melhora de qualidade de vida, garantindo um envelhecimento com bem-estar e prevenção de eventuais problemas e enfermidades. Há vários aspectos que contribuem para isso além da medicação, quando necessária: dieta rica em fibras e lácteos, atividade física, menos ingestão alcoolica e combate ao fumo.

Diferentemente do testículo, que diminui a produção hormonal lentamente, o ovário registra uma queda abrupta, que, para a grande maioria das mulheres, ocorre entre 48 e 51 anos. Quando isso acontece, pode-se ter sintomas como ondas de calor, irritabilidade, depressão, insônia. Após um ou dois anos, a vagina pode ressecar – com registro de problemas urinários –, assim como a pele. Nos primeiros cinco anos, pode-se perder ainda de 2% a 6% de massa óssea anualmente, elevando riscos de osteoporose e implantação dentária. Problemas cardiovasculares também podem ser prevenidos com a reposição.

 

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