O que preciso saber sobre sexo?

Você está animada com o namoro, e ele também. Mas esse entusiasmo vem misturado a muitas dúvidas. Como será a primeira relação sexual? Vai doer? Ele vai continuar gostando de mim? Vou engravidar? O que vai pensar se eu pedir para ele usar camisinha logo na primeira vez?

Essas são algumas das dúvidas que o ginecologista e obstetra João Tadeu Leite dos Reis, assistente estrangeiro da universidade francesa Paris V e ex-presidente da Comissão Nacional de Ginecologia Infanto Puberal, tenta esclarecer nesta entrevista.

Quais as dúvidas e comportamentos mais comuns das meninas que estão prestes a iniciar a vida sexual?

As dúvidas mais frequentes são em relação a como ocorrerá a primeira relação, tendo por base experiências de pessoas mais próximas, como amigas e irmãs. “Será agradável ou não?” “Vai doer?” “Vai sangrar?” “Vou atingir o orgasmo?” “Ele vai gostar de mim?” “E se eu não estiver prevenindo gravidez, será que vou engravidar?” “O que será que ele vai pensar se eu propuser logo na primeira vez usar camisinha?”. Essas são algumas das dúvidas mais comuns.

Todas essas situações variam muito de caso para caso. Com relação ao sangramento, não é obrigatório ou necessário que ele aconteça para se comprovar a perda da virgindade. A questão do orgasmo está mais relacionada ao tempo de experiência de atividade sexual.

No que se refere à dor, o que ocorre comumente é um incômodo. Porém, geralmente não por motivos anatômicos, e sim por tensão e estresse, causando contratura da musculatura da mulher e pouca lubrificação. É importante dizer que o relacionamento sexual é um aprendizado constante, que acontece ao longo de algum tempo, dependendo de como cada pessoa é, de como é o relacionamento com o parceiro e, principalmente, se esta interação com o parceiro é boa ou não. Como tudo na vida, ninguém nasce sabendo, mas vai aprendendo com o tempo.

E quais são os erros mais comuns das meninas que estão iniciando a vida sexual?

Um erro muito frequente é criar uma grande expectativa e se decepcionar. O que seria um momento “fantástico” passa a ser uma experiência plena de ansiedade pelos dois lados, o dela e o do parceiro. Um outro erro é a falta de prevenção adequada à gravidez e às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Às vezes, a menina fica receosa quanto ao que o parceiro poderia pensar, imaginando que ele vá imaginar coisas como “será que ela tem alguma doença?”ou “será que ele é mais experiente do que eu?”. A menina deve, sim, tomar a iniciativa de sugerir o uso de camisinha, pois isso é uma proteção para ela.

Como elas devem agir para ter uma vida sexual segura?

Inicialmente, ter as informações adequadas sobre a atividade sexual desde seus padrões de frequência e intensidade, passando pelos diversos tipos de práticas sexuais e chegando aos cuidados sobre gravidez e DSTs. Sem dúvida, não é aceitável que, com a disponibilidade atual de informações, uma adolescente se inicie sexualmente sem utilizar um método contraceptivo eficaz e de forma regular, ou que não use camisinha em todos seus contatos sexuais.

Muitas vezes, falar sobre sexo com os pais não é uma tarefa simples. Como as adolescentes devem abordar o assunto com eles?


Essa abordagem deve ser feita com naturalidade, desde que tanto ela como os seus pais compreendam que as manifestações da sexualidade fazem parte da vida de qualquer ser humano. Seria errado se assim não fosse. Porém, sentir-se à vontade para comentar sentimentos e experiências íntimas com os pais também é um processo que não pode ser iniciado de um dia para o outro. O ideal é que desde a infância haja, entre a adolescente e seus pais, espaço e liberdade para que os sentimentos sejam expressados e compreendidos.

Quando deve acontecer a primeira visita ao ginecologista? Os pais devem esperar a vontade partir da menina ou devem estimular a consulta?

A visita ao ginecologista deve ser vista como uma visita a outro médico qualquer, quando a adolescente estaria avaliando uma parte importante de seu corpo, relacionada com seu futuro reprodutivo. Não se deveria criar um clima de que a exposição do corpo é constrangedora ou de que o exame ginecológico incomoda. Ao contrário, a primeira visita ao ginecologista ocorrendo ao final da infância visa muito mais a uma avaliação clínica geral do desenvolvimento puberal do que ao tratamento de alguma doença. O ginecologista, muitas vezes, é visto como o principal médico da mulher, e essa aproximação deve ocorrer desde a adolescência, por uma escolha dela, a partir de uma empatia. Mesmo porque o papel do médico, ao atender uma adolescente, está diretamente ligado a orientação e prevenção específicas da área, e também a recomendações sobre alimentação, peso corporal e comportamento.

No ginecologista, o que a adolescente deve procurar saber? Quais as perguntas mais básicas a serem feitas? Que exames devem ser realizados?

Antes de se iniciar sexualmente, a avaliação médica está direcionada às mudanças corporais associadas ao desenvolvimento puberal (mamas, pelos, altura, peso), para o acompanhamento dos ciclos menstruais (frequência, intensidade, duração) e para as mudanças associadas ao comportamento (escola, família, namoro, uso de drogas). A partir do momento em que a adolescente já mantém relações sexuais, a abordagem muda um pouco, sendo mais voltada para as manifestações da sexualidade em que é fundamental avaliar o número de parceiros sexuais, as práticas sexuais realizadas, o uso regular de contracepção e camisinha.

Ainda sobre a primeira ida ao ginecologista, as mães devem estar presentes durante a consulta?


Essa questão é polêmica, mas, em princípio, a consulta médica é um momento da adolescente, tendo ela, como paciente, direito à privacidade e à confidencialidade. Assim, é possível que na primeira consulta com o ginecologista a mãe esteja presente para facilitar um primeiro contato de sua filha com o médico, principalmente se ela for mais nova. Mas acredito que, a partir daí, o relacionamento principal é entre o ginecologista e a adolescente, devendo esta ter seu espaço preservado pelo profissional médico.

Em termos de DSTs e gravidez: o que normalmente preocupa mais as meninas? E qual deve ser a orientação para adolescentes que estão iniciando a vida sexual?

Entre os dois grupos, acredito que o medo maior seja o de uma gravidez inesperada e não planejada para aquele momento de vida. Porém, de uma maneira geral, faz parte da adolescência ser muito imediatista e, assim, o comportamento mais frequente é o de não se preocupar muito com o que vai acontecer no futuro. Mesmo um período curto de tempo como dois ou três meses parece, na adolescência, interminável. Já é possível notar uma mudança nesse padrão, e adolescentes mais conscientes procuram orientação contraceptiva antes de se iniciarem sexualmente.

Quando a menina resolve ter relação sexual pela primeira vez, o que deve saber, pensar, sentir ou perceber para tomar a decisão mais certa?


A decisão de ter vida sexual é pessoal e deve ser tomada levando-se em consideração que um momento tão marcante como esse deve ser compartilhado com um parceiro especial. Não se deve esquecer que essa decisão vem acompanhada de responsabilidades em relação ao seu próprio corpo e ao seu futuro, não só o reprodutivo, como também o familiar e emocional.

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