Hormônios e peso corporal

hormônios e peso corporal

Medir forças com a balança, em busca do peso ideal, é tarefa das mais difíceis. Afinal, no cotidiano, estamos expostos a alimentos ricos em calorias, mas de fácil preparação e consumo. Isso sem falar no pouco tempo que nos resta para atividades físicas regulares. Porém, nem sempre esses fatores são os únicos condicionantes. Alterações hormonais também podem levar ao acúmulo de gordura corporal.

A taxa de metabolismo basal, que estabelece o mínimo de energia necessária para a manutenção das funções vitais do organismo em repouso, diminui ao longo da vida, principalmente depois dos 40 anos. A redução é da ordem de 1% a 2% a cada ano. Com isso, os excessos da cota calórica ingerida diariamente passam a ser incorporadas mais e mais às reservas de gordura corporal, contribuindo substancialmente para o ganho de peso.

“Por esse mecanismo, e como consequência da falência ovariana fisiológica da transição para a menopausa, a menor produção de estrógenos motiva menor deposição de gordura nos territórios periféricos com o consequente acúmulo de gordura no abdômen e, por extensão, aumento do peso corporal”, avalia o médico Ronald Bossemeyer, professor titular do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Os fatos citados são inerentes ao funcionamento do organismo feminino e não possuem transcendência em exames laboratoriais, demandando, normalmente, apenas o seu entendimento e a adoção de medidas dietéticas e exercícios.

O Dr. Bossemeyer alerta também que é hábito enquadrar todas as variações de peso como ligadas a algum tipo de endocrinopatia, especialmente durante a transição para a menopausa, fase que ocorre entre o início das variações do ciclo menstrual e se estende até a última menstruação. “A atribuição da culpa a uma disfunção da tireoide (hipofunção tireoidiana ou hipotireoidismo), nesses casos, é muito comum, completa”. Dessa maneira, por culparem o problema da tireoide como causa do ganho de peso, muitas mulheres deixam de introduzir na vida cotidiana as medidas realmente eficazes, tais como exercício e dieta.

“É claro que as doenças da tireoide podem estar envolvidas com a falência ovariana fisiológica característica dessa etapa de vida, e um diagnóstico correto deve ser formulado oportunamente. Os hormônios da tireoide agem em todas as células do organismo, aumentando a síntese protéica, e as doenças tireoidianas podem se manifestar de várias formas (...), desde as mais discretas até um quadro mais grave”, acrescenta o especialista, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH).

Os principais sintomas iniciais são inespecíficos e podem ser atribuídos ao envelhecimento. Em quadros mais claros, a expressão facial pode ser apática, letárgica, pode haver queixas de fraqueza ou fadiga. A pele pode ficar seca, espessa e áspera. Diminuição da frequência cardíaca, reflexos lentos, constipação severa, hipotermia, intolerância ao frio, diminuição da sudorese e menorragias podem, por vez ou outra, estar presentes, assim como o aumento do peso.

Reposição hormonal

Uma acepção que precisa ser criteriosamente avaliada, no entanto, é a de que todo o tratamento com esteroides sexuais provoca ganho de peso, o que é um mito. “A prescrição da terapia de reposição hormonal está devidamente normatizada. Um efeito direto e inequívoco desse procedimento sobre o aumento do peso corporal não se comprovou em estudos metodologicamente bem delineados. De outra parte, uma distribuição favorável da gordura, do tipo ginecoide, pode ser atribuída à ação da reposição hormonal”, afirma o Dr. Bossemeyer.

Dormir pouco também contribui para o ganho de peso, conforme indica uma pesquisa publicada em outubro deste ano na revista Annals of Internal Medicine. O estudo relacionou a falta de sono com uma maior dificuldade em eliminar o excesso de gordura em quem faz dieta. Segundo os resultados, os participantes que dormiram mais de oito horas por noite perderam 56% mais gordura em relação aos que tiveram tempo de sono menor que seis horas.

Quem dormiu menos também apresentou aumento dos níveis do hormônio grelina – que, entre outras coisas, estimula o apetite e a ingestão de alimentos – no sangue. Por isso, sentiram mais fome.

Componentes emocionais

Em qualquer análise sobre ganho de peso, também devem ser considerados possíveis quadros de cunho social. O temor ao envelhecimento, a preocupação com a imagem, eventual instabilidade conjugal, a “síndrome do ninho vazio” (tristeza quando os filhos deixam o lar), dificuldades com a subsistência pessoal ou familiar, competições com o marido, incertezas da aposentadoria, manifestação ou agravamento de doenças pré-existentes ou decorrentes do envelhecimento, a problemática da sexualidade, viuvez ou solidão são alguns dos temas citados pelo especialista.

“Esses fatores são capazes de gerar angústias ou casos de depressão de gravidade intangível. A somatização sob a forma de aumento do apetite, nessas situações, não pode ser esquecida ou negligenciada”, acrescenta o ex-presidente da SBRH.

Contribui ainda para o aumento do peso, segundo o Dr. Bossemeyer, a redução da atividade física feminina que se verifica com o passar dos anos por motivos que vão do excesso de comodidades ao comodismo, e as limitações causadas por moléstias do aparelho locomotor – decorrentes muitas vezes do próprio excesso de peso, entre outros fatores.

“Somem-se a isso tudo hábitos alimentares impróprios, enfermidades degenerativas limitantes na idade avançada e a própria obesidade como doença metabólica individualizada e com reconhecimento componente genético”, conclui o especialista, que defende um apoio multiprofissional, com estreita colaboração de endocrinologistas, nutricionistas, fisiculturistas, psicólogos, entre outros, para uma análise mais aprofundada de cada caso.

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