Os Riscos da Depressão à Saúde da Mulher

A depressão já é um tormento para a mente, provocando angústia, sensação de desespero e crises de choro. Mas seus impactos podem ser ainda mais graves: pesquisas recentes indicam que o problema maltrata também o coração e pode ter influência negativa sobre outras partes do corpo, ao causar ou agravar doenças.
Segundo o Dr. Ronald Bossemeyer, professor titular de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal gaúcha de Santa Maria (UFSM) e membro da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina, a depressão é um dos distúrbios de humor que se manifestam de várias formas: apresentam de alterações leves até quadros clínicos mais graves, quando o problema só é totalmente tratável à base de medicamentos.
“A depressão, de modo geral, resulta em uma inibição global da pessoa que afeta funções nobres da mente humana, como a memória, o raciocínio, a criatividade, a vontade, o amor e o sexo. As doenças depressivas, por isso, se manifestam das maneiras mais diversas. O quadro clássico da depressão, no entanto, consta de tristeza, choro, indisposição, apatia, abatimento etc.”, ensina o Dr. Bossemeyer.
A Dra. Elenita Favarato, psicóloga do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade de São Paulo (USP), destaca, por sua vez, a diferença entre os quadros de depressão e tristeza. Esta, de acordo com a médica, é um estado emocional do ser humano, normal e até necessário em algumas situações, como quando alguém da família morre.
A tristeza permanece por um período de tempo, até que o comportamento habitual seja retomado. Já a depressão, acrescenta a Dra. Elenita, se caracteriza por tristeza de intensidade e duração inadequadas e por apresentar prejuízo funcional. “As atividades que a pessoa realiza no dia a dia ficam comprometidas pela dificuldade de atenção, memória e falta de energia”.
Ainda segundo a psicóloga, para se diagnosticar um caso de depressão, é necessário que a pessoa apresente os sintomas por um período de, no mínimo, duas semanas. Vale destacar também que, nas mulheres, a doença pode assumir nuances bem específicas, em função de alterações hormonais, e encontrar momentos mais propícios ao seu surgimento em determinadas etapas da vida.
Coração fraco
De acordo com o Dr. Bossemeyer, a menopausa e a pós-menopausa são as épocas em que a vulnerabilidade é maior e mais mulheres passam a sofrer com a depressão. As causas podem ser muitas: medo de envelhecer, preocupação com a autoimagem, instabilidade conjugal, preocupação com a subsistência, problemas sexuais (secura vaginal, dor durante as relações), viuvez, abandono, mobilidade mais limitada.
Além disso, doenças associadas ao envelhecimento, como tumores, ajudam a agravar a depressão e, ao mesmo tempo, pioram devido à fragilidade emocional causada por ela. “Como a mulher está em um momento delicado de sua existência, pelas mudanças, incertezas e medos, pode ter instabilidade emocional, que, por sua vez, causa quadros de maior gravidade”, aponta o médico.
Esses casos mais fortes têm grandes chances de atingirem o coração: estudo realizado nos Estados Unidos comprova que quadros de depressão em mulheres acima dos 50 anos aumentam o risco de desenvolvimento de problemas cardíacos.
“A depressão determina ou mesmo agrava certas doenças, como a hipertensão arterial e enfermidades cardiovasculares, diabetes, asma, alergias, labirintite, fibromialgia e outras”, corrobora o especialista, apontando também outras doenças, além das ligadas ao coração, que podem ser intensificadas pela depressão. E isso acontece para os quadros de depressão em qualquer idade.
As alterações hormonais próprias das mulheres podem, também, aprofundar os quadros de depressão. O estrogênio (principal hormônio feminino, associado à reprodução humana) ajuda a equilibrar o funcionamento cerebral, protege os neurônios, otimiza a reparação das membranas celulares e estimula a ação positiva de neurotransmissores.
Quando os níveis de estrogênio no corpo feminino caem, o humor pode ser prejudicado. Isso ocorre, por exemplo, no período pré-menstrual (a velha TPM encontra aí sua justificativa científica), na menopausa e após o nascimento dos filhos.
Pós-parto
Os quadros de depressão pós-parto, que normalmente se manifesta quatro semanas após o procedimento, podem atingir intensidade máxima em seis meses. Quem apresenta depressão pós-parto apresenta sentimentos de culpa, desânimo persistente, alterações do sono, ideias suicidas, temor de machucar o bebê, diminuição do apetite e da libido, redução do nível de funcionamento mental e presença de pensamentos obsessivos.
“Segundo diversos estudos, a depressão pós-parto atinge de 10 a 20% das mulheres. Desta forma, pode ser considerada um problema de saúde pública. Afeta a saúde da mãe, o desenvolvimento psíquico e físico do bebê, traz consequências para o relacionamento conjugal e com os outros filhos”, explica a Dra. Elenita, lembrando que a doença impede que a mãe tenha disponibilidade emocional para cuidar e corresponder às necessidades do bebê.
Uma boa estratégia para combater o problema nas mães que acabaram de ter filhos é detectá-lo precocemente, já durante a gestação. No entanto, nas mulheres que apresentam depressão durante ou após a menopausa, o Dr. Bossemeyer aponta como opção a terapia hormonal, que é capaz de reduzir a ansiedade, melhorar o humor e causar sensação de bem-estar. Mas é bom ficar atenta: terapia hormonal só funciona quando a depressão é de grau leve a moderado. Nos casos mais fortes, é necessário recorrer a antidepressivos.




