Lutas Feministas Mudaram Também a Medicina
Hoje em dia, é difícil imaginar uma mulher que se submeta a crendices e simpatias para prevenir a gravidez ou amenizar os efeitos da menstruação. Mas até a metade do século passado essa era a regra.
As conquistas da mulher nesse campo são relativamente recentes, e grandes avanços da medicina acompanharam os movimentos feministas, iniciados ainda no final do século 19 e retomados com mais vigor na segunda metade da década de 1960. Essas lutas ganharam impulso com o desenvolvimento cada vez mais intenso de medicamentos e tratamentos voltados para a saúde da mulher, envolvendo a contracepção, o surgimento da terapia hormonal e a valorização da sexualidade feminina.
Até então fazia parte da crendice popular tomar chá de boldo para curar cólicas, deixar de lavar os cabelos, de andar descalça ou de entrar em cemitério “naqueles dias”, evitar banhos de mar durante a gravidez e trocar a maternidade pelo parto dentro de casa, em condições precárias e sem assistência médica. Para o ginecologista Dr. Aroldo Camargos, professor titular do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), essas antigas tradições são um desrespeito à vida e à saúde das mulheres.
A descoberta da pílula anticoncepcional, segundo ele, é o marco principal na relação entre conquistas da medicina e revolução feminista. Representou um grande avanço para a independência feminina, deu à mulher maior liberdade sexual e voz ativa no planejamento familiar. “De maneira direta, a pílula reduz a gravidez não planejada e, consequentemente, a mortalidade materna, aumentando a qualidade de vida da mulher”, afirma.
Internacionalmente, por exemplo, a mortalidade materna só ganhou de fato o status de grave problema de saúde pública no fim da década de 1980. O cuidado mais adequado ao assunto prosseguiu nas décadas seguintes, a ponto de a redução desse tipo de óbito ter sido colocada, em 2000, como um dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio — uma série de metas socioeconômicas que os países da Organização das Nações Unidas (ONU) se comprometeram a atingir até 2015.
“A pílula também trouxe a liberdade sexual, que é um fator de expressão do direito pleno da mulher como cidadã”, acrescenta Camargos. A gravidez não programada era fator limitante para que a mulher assumisse outros papéis na sociedade. Até então, frequentemente ela só tinha tempo para ser mãe. Segundo o médico, dois anos após a aprovação da pílula, em 1962, o número de usuárias nos Estados Unidos já ultrapassava a marca de 1 milhão. Um ano mais tarde, esse número teria quase dobrado. Estudo recente realizado pelo Instituto Guttmacher, organização de saúde sexual norte-americana, mostra que 80 milhões de norte-americanas utilizam a pílula anticoncepcional. No Brasil, são mais de 10 milhões de mulheres.
Isso tudo ajudou a abrir caminho até para se curtir mais a própria maternidade. Antes a gravidez às vezes era vista como fruto exclusivo do destino, não algo exatamente a ser comemorado. Hoje, ao contrário, muitos casais fazem verdadeiros books com o mês a mês da gestação, algo inimaginável décadas atrás (você já viu alguma foto de sua avó grávida?). A famosa (e polêmica) fotografia de Leila Diniz com o barrigão à mostra na praia de Ipanema, por exemplo, é de 1971.
Terapia hormonal
De forma indireta, a descoberta da manipulação de hormônios, a partir da pílula, deu às mulheres a oportunidade de contarem com a terapia hormonal. Enquanto os hormônios dos anticoncepcionais têm como prioridade o bloqueio da ovulação e da contracepção, a terapia de reposição hormonal procura reduzir os sintomas da menopausa, que marca o fim da fase reprodutiva feminina. Nesse período, os ovários reduzem a liberação de estrogênio, provocando alterações físicas como ondas de calor, alterações de turgor da pele e alterações de humor.
Atualmente, estão disponíveis no mercado diversos tipos e marcas de anticoncepcionais, com diferentes taxas hormonais em sua composição. Além de prevenir a gravidez, esses produtos podem auxiliar no controle da acne, da síndrome da Tensão Pré-Menstrual (a famosa TPM) e na redução do risco de câncer de ovário. Já a terapia hormonal pode ajudar a prevenir a osteoporose.
Outras questões de saúde essencialmente femininas, como gravidez e parto, também deixaram de contar apenas com a participação das mulheres mais próximas. Aos poucos, a tradição das parteiras (que ainda persiste em pequenas cidades ou vilarejos do interior) foi sendo abandonada, e o parto nas maternidades passou a ser um indicativo de boa qualidade no atendimento.
“A revolução feminina trouxe o respeito à mulher, que, assim, passou a receber cuidados pré-concepcionais e de pré-natal de melhor qualidade”, analisa Aroldo Camargos.
Redação Bayer HealthCare Pharmaceuticals
Leia também:




