O surgimento da pílula anticoncepcional deu grande impulso para os movimentos feministas e para a liberdade das mulheres (Lutas feministas mudaram também a medicina e Aos 50, cada vez mais moderna).
Ainda permanecem barreiras culturais para que esse e outros métodos contraceptivos se disseminem ainda mais, mas a tendência é que eles continuem a evoluir e deixem de ser vistos apenas como algo a ser utilizado para programar o nascimento de filhos. Cada vez, terão também outros benefícios, prevê o médico Aroldo Camargos, professor titular do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Em entrevista concedida por e-mail, ele fala da evolução da pílula — que hoje é considerada absolutamente segura e eficaz — e prevê que os métodos contraceptivos vão contribuir ainda mais para a saúde da mulher. Ele destaca, por exemplo, que já há estudos mostrando que a pílula reduz a incidência de algumas doenças de mama, alivia sintomas da Tensão Pré-Menstrual (TPM), diminui a incidência de cólica menstrual e traz benefícios para quem tem artrite.
Confira abaixo os principais temas abordados por Camargos.
Os primórdios da pílula
Embora a descoberta da pílula seja um dos mais significativos avanços científicos dos últimos tempos, existiam e continuam existindo barreiras culturais e religiosas para a sua utilização. Os descobridores da pílula, John Rock e Gregory Pincus, fizeram com que o contraceptivo parecesse um método natural, por isso decidiram que a pílula deveria ser tomada por três semanas, com uma semana de repouso, para permitir o aparecimento da menstruação. Rock colocou as pílulas dentro de uma caixinha redonda similar à do pó compacto, o que faria com que a embalagem não fosse notada entre os pertences da mulher.
A primeira geração de contraceptivos
Na primeira geração das pílulas, as altas dosagens causavam inúmeras reações, como náuseas, visão turva, trombose, depressão, acidente vascular cerebral, ganho de peso e distensão abdominal. Por causa das queixas, os médicos foram rapidamente desacreditando o produto. Além disso, eles não dividiam com as pacientes as informações sobre a pílula, porque acreditavam que elas não eram capazes de entender os princípios da medicação. O New York Times deu as boas-vindas à nova descoberta, mas ressaltou que a pílula começava com uma maciça overdose de hormônio. A primeira pílula possuía dez vezes mais hormônios do que o necessário.
A evolução da pílula
Em 1961, a pílula foi introduzida no mercado europeu e no Brasil. Em 1966, a FDA [Food and Drug Administration, agência do governo norte-americano responsável pelo controle de alimentos, medicamentos e cosméticos] permitiu às companhias baixar a dosagem dos hormônios por causa dos efeitos colaterais. Nos anos 70, foram lançadas a pílula com levonorgestrel [tipo sintético de progesterona], as bifásicas [aquelas cuja cartela apresenta dois tipos de comprimido, com composições diferentes] e as trifásicas [três tipos de comprimido], as de baixa dosagens e a minipílula, só com progestógeno [um tipo de hormônio]. Em 1980, surgiu uma nova versão de pílulas com baixa dose de hormônios, que possuíam menos quantidades de progestógenos e estrogênios — nessa época, apenas 3,4% dos contraceptivos orais de alta dosagem ainda se encontravam no mercado. Em 1987, descobriram-se as pílulas de terceira geração. E, em 1990, a FDA considerou a pílula segura e eficaz.
Ainda há desconhecimento
O desconhecimento dos benefícios da pílula leva as pacientes a terem concepção errônea a respeito dos contraceptivos. Hoje, 65% acreditam que a pílula pode ser tão perigosa como a gravidez; 58% são incapazes de dizer quais são os benefícios não contraceptivos da pílula; 96% das mulheres na fase reprodutiva se consideram informadas sobre contracepção e 56% delas acreditam, incorretamente, que deve haver repouso periódico em relação à pílula.
A tendência dos tratamentos contraceptivos
O emprego de baixas doses associado a componentes mais próximos dos hormônios naturais e com outras propriedades não contraceptivas. Creio que não ocorrerá nenhum aumento da eficácia dos contraceptivos, entretanto, serão agregados benefícios à saúde da mulher com o emprego de novos componentes.
Principais benefícios da pílula contra câncer e cistos
- A pílula reduz a incidência do câncer colo-retal em 40%;
- A incidência de câncer de endométrio é reduzida pelo uso de pílulas orais combinadas;
- O uso de anticoncepcionais orais diminui o risco de desenvolver cistos ovarianos funcionais. O risco de desenvolver cisto folicular cai pela metade e o de desenvolver cisto do corpo lúteo reduz-se em 80%;
- A pílula reduz as incidências de doença fibrocística [caracterizada por dores nas mamas, cistos e nódulos] e fibroadenoma [um tipo de nódulo] da mama em até 25%.
O efeito aumenta quando a duração do uso da pílula é mais longa;
- [Há indicações de que] gravidez e uso de pílula diminuem o risco de câncer epitelial ovariano, por inibirem a ovulação.
Principais benefícios da pílula, ligados a menstruação
- Seis a oito de cada dez mulheres têm redução da perda sanguínea durante a menstruação quando usam pílulas. A pílula encurta a menstruação e diminui a perda, ajudando a manter os níveis de ferro.
-A dismenorréia diminui com o bloqueio da ovulação. Estudos mostram que as mulheres usuárias de pílula têm 60% a menos de risco de ter dismenorreia do que as não usuárias. Usuárias de pílula faltam menos ao trabalho e à escola por causa de dismenorreia.
- Pílulas contendo drospirenona são eficazes no alívio dos sinais e sintomas físicos e psicológicos das portadoras de síndrome de tensão pré-menstrual.
Outros benefícios
- A pílula reduz em até 50% a chance de uma mulher desenvolver Doença Inflamatória Pélvica (DIP) e também diminui a gravidade da doença. O aumento da viscosidade do muco ajuda a diminuir a incidência de DIP;
- Tem sido relatado o retorno dos sintomas da Doença de Crohn [inflamação crônica de partes do sistema digestivo] em mulheres que param de tomar a pílula;
- Uma revisão sobre a pílula e a artrite reumatoide revelou que a pílula não protege quanto ao aparecimento da doença, mas protege quanto à sua progressão para a forma mais grave;
- Alguns progestógenos [um tipo de hormônio] contidos na pílula produzem redução das lesões inflamatórias e não inflamatórias da acne.
Entrevista com Dr. Aroldo Camargos - ginecologista, obstetra e professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Fez mestrado em Ginecologia e Obstetrícia na UFMG e doutorado na University of London. É líder de de um grupo de pesquisa sobre Reprodução Humana e Células Tronco, além de ser pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e do Centro Nacional de Ciências e Tecnologia de Medicina Molecular.




