DSTs e Prevenção

Muita gente sabe que o leque de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) vai muito além da Aids. Todavia, uma informação que poucos conhecem é a de que as infecções causadas pelo vírus HIV (responsável pela Aids) são menos comuns que outras dessas enfermidades, como o papiloma vírus humano (HPV).
Em agosto de 2009, o Ministério da Saúde lançou a Pesquisa de Comportamento, Atitudes e Práticas Relacionadas às DSTs e Aids na População Brasileira de 15 a 64 anos. O estudo mostrou que 10,3 milhões – 6,6 milhões de homens e 3,7 milhões de mulheres — já tiveram sinais de doenças sexualmente transmissíveis.
As DSTs se dividem em: de origem viral (como HIV, hepatites B e C, herpes e HPV) e de origem bacteriana (como gonorreia, cancro mole, sífilis e clamídia). O HPV é a mais frequente entre as causas virais e pode também causar, além de DSTs, lesões de pele, dependendo do tipo de HPV. Existem mais de 200 tipos diferentes de HPV e somente os de alto risco, se não forem bem acompanhados, podem vir a causar câncer de colo do útero.
“Ao longo de dez anos, o HPV pode evoluir para tumores malignos. Mas ele dá sinais de que está evoluindo, por meio dos exames de rotina, como o papanicolau. Se a mulher faz o controle adequado, não precisa ter medo do HPV”, explica o professor de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FRM-USP), Geraldo Duarte, também coordenador do setor de Moléstias Infecto-Contagiosas em Ginecologia e Obstetrícia do Hospital das Clínicas da FRM-USP.
Os sintomas variam de acordo com cada doença. A sífilis, por exemplo, tem três fases: a primeira, sintomática, se manifesta uma semana depois da infecção, quando aparece uma ferida que, no entanto, muitas vezes é ignorada pela mulher. A segunda fase é praticamente assintomática e pode durar aproximadamente duas décadas. Por não haver sintomas nessa etapa, muitas mulheres desconhecem que portam o vírus. E a terceira fase, também chamada de tardia, pode apresentar novas feridas, ou de maneira mais grave, acometer órgãos do Sistema Nervoso Central ou Periférico. Deve-se ressaltar que essa evolução ocorre se a mulher não for tratada.
Já a clamídia, a mais frequente entre as DSTs bacterianas, pode ser assintomática, ou causar diversos tipos de sintomas, tais como corrimento, dor para ter relação sexual, dores pélvicas e sangramentos após o coito, ou fora da época da menstruação. É uma bactéria bastante perigosa, porque afeta os órgãos ginecológicos internamente, como o canal do útero, as trompas e até a uretra. Nos casos não tratados, as infecções por clamídia podem causar esterelidade, pois podem levar a lesões nas trompas.
Algumas DSTs, especialmente as virais, como o HIV, podem causar febre nos dias seguintes à aquisição da doença, ou um quadro semelhante a uma gripe. A gonorreia pode provocar não só febre como também dificuldade para urinar, no caso de ter ocorrido infecção uretral, chamada uretrite gonococica.
Apesar de os sintomas estarem presentes e, portanto, indicarem a existência de algum problema, muitas mulheres ignoram o aviso que o corpo está dando. “A febre vem para ajudar a identificar, mas febre se tem por qualquer coisa. Então muitas mulheres ignoram o sintoma”, comenta o Dr. Geraldo. Segundo a pesquisa do Ministério da Saúde, 18% dos homens e 11,4% das mulheres que já apresentaram sintomas de DSTs não procuraram nenhum tipo de tratamento.
Para o professor da FRM-USP, outro fator que leva as mulheres a ignorar os sintomas – por exemplo, as feridas que aparecem na região da vagina – é o medo e a vergonha de ter alguma doença. “Algumas acham que foi alguma coisa que comeram, ficam com medo de falar e reconhecer que têm alguma doença. Com isso, vão postergando”, conta. A única enfermidade que não é ignorada, ainda segundo o Dr. Geraldo, é a gonorreia, que causa dor intensa e acaba levando as mulheres a procurar um médico.
Essas doenças só são transmitidas por causa do comportamento sexual adotado por mulheres e homens: o sexo sem o uso do preservativo. O fator mais comum para a ocorrência de DSTs é o ínicio frequente de novos relacionamentos sem a camisinha. Segundo o estudo do Ministério da Saúde, aqueles que já tiveram relações sexuais com mais de dez pessoas têm 65% mais chances de terem DSTs.
“Tudo isso tem como pano de fundo o sexo sem proteção”, ressalta novamente o professor da USP. Segundo ele, a pessoa pode contrair doenças ou mesmo transmitir. “Às vezes, o parceiro anterior tinha alguma doença que ela pegou e não sabia”, pontua. “A melhor orientação que se pode passar é a de a mulher fazer sexo protegido”, receita.
Preservativos
Manter o uso de camisinha quando se tem um relacionamento estável e um parceiro fixo é tarefa difícil. Na maioria das vezes, o homem não quer usar a proteção. “A parceria, a fidelidade, têm de ser de mão dupla. Se a mulher não confia, é melhor que lute para introduzir a camisinha no relacionamento”, completa o Dr. Geraldo.
Não foi o que fez a jornalista Sheyla Moreira, de 30 anos. Ao iniciar um namoro quatro anos atrás, o parceiro informou que tinha herpes. Ela foi à médica saber detalhes sobre a doença e decidiu permanecer com o parceiro, usando preservativo “quase sempre”, especialmente em momentos mais críticos, quando o namorado percebia que a doença estava prestes a se manifestar. Depois de um ano de relacionamento, ela também contraiu a doença.
“Eu sabia que era uma possibilidade e resolvi arriscar. Quase sempre nos protegíamos usando camisinha. Mas, depois de um tempo, para ele já era natural ter relações sem camisinha. Fiquei chateada quando ficou confirmado que eu tinha contraído a doença, mas já me acostumei. Tive duas ou três crises no total, apenas. A enfermidade quase não se manifesta em mim e, às vezes, chego a esquecer que tenho herpes.”
Mas ela tem, e a doença não tem cura. Sheyla confessa que às vezes reza para que seja encontrado um tratamento, ainda mais agora que seu relacionamento acabou e ela tem receio de infectar novas pessoas e de ser rechaçada por algum possível novo parceiro em função do problema. “Não sei como vou abordar o assunto com os próximos parceiros”, comenta.
Os únicos tratamentos que existem são voltados para os sintomas e podem abreviar os períodos de manifestação da doença. Por exemplo: a ferida que ficaria dez dias no corpo, fica apenas quatro.
Portanto, em caso de suspeita de alguma doença sexualmente transmissível, procurar um médico sempre é a melhor opção. Outra orientação é estar sempre atenta ao próprio corpo e aos avisos que ele dá. “Há muitos casos em que as mulheres que são portadoras de herpes ou sífilis, por exemplo, sequer sabem disso e só vão perceber quando há a manifestação clínica. É importante prestar atenção”, finaliza o Dr. Geraldo Duarte.
| SINTOMAS DE DSTs |
| HIV O vírus pode causar inicialmente uma série de sintomas bastante variados e pouco específicos, mas que merecem atenção: gripe persistente, perda de peso, diminuição da força física, febre intermitente (a pessoa fica febril e melhora, e febril novamente com muita frequência), dores musculares, suores noturnos, diarreia. A doença pode levar mais de dez anos para aparecer e manifestar os primeiros sinais e sintomas. |
| Hepatite B O vírus pode ficar incubado de quatro a seis meses e a doença se caracteriza por icterícia (coloração amarela na pele e no branco dos olhos), perda de apetite, dor de estômago, desconforto abdominal, mal-estar, náuseas, vômitos, urina escura, fezes cor de argila ou esbranquiçadas, dores nas articulações. |
| Herpes A maior parte dos casos de herpes genital é causada pelo vírus Herpes simplex tipo 2. A doença causa bolhas nas áreas genitais, que causam dor e coceira. As bolhas estouram, deixando feridas que podem levar de duas a quatro semanas para sarar na primeira vez que aparecem. A quantidade de erupções tende a diminuir em poucos anos. |
| HPV O vírus HPV, ou papiloma vírus humano, pode causar lesões de pele, como verrugas. Algumas aparecem em áreas comuns do corpo e outras infectam a região genital, podendo ocasionar lesões. Pode provocar desde leve coceira a dor durante a relação sexual. No entanto, é comum não se perceber qualquer alteração no corpo. É frequente não se apresentar nenhum sintoma, e, por isso, a importância das consultas de rotina ginecológica. |
| Gonorreia É causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae, também chamada de gonococo. Provoca febre, queimação ao urinar, aumento de corrimento vaginal e fortes dores no ânus. |
| Cancro mole Haemophilus ducreyi é o nome da bactéria causadora do cancro mole, doença que fica encubada por um curto período (dois a cinco dias) e é caracterizada por feridas dolorosas no local contaminado, com fundo raso, borda amolecida e bem delimitada. |
| Sífilis Transmitida pela bactéria Treponema pallidum, a doença tem três fases: a primeira, que apresenta feridas, dura de uma a quatro semanas após a infecção, sendo muitas vezes ignorada pela mulher. A segunda fase é praticamente assintomática e pode durar duas décadas. Na terceira, também chamada de tardia, pode apresentar novos ferimentos ou, de maneira mais grave, acometer órgãos do Sistema Nervoso Central ou Periférico. Deve-se ressaltar que essa evolução ocorre se a mulher não for tratada. |
| Clamídia É chamada de "silenciosa" porque muita gente sequer sabe que tem, por não apresentar sintomas externos, atacando internamente o corpo da mulher, no canal do útero e na uretra. Pode causar secreções vaginais anormais e sensação de queimação ao urinar; pode causa, ainda, dores pélvicas, dores nas relações sexuais e sangramento após o coito, ou fora do período menstrual. |






